Nossa fé cristã ensina que Jesus é a revelação de Deus para toda a humanidade. Nele descobrimos que Deus é Pai e que tanto amou o mundo que enviou seu Filho para nos salvar (cf. Jo 3,16). Desse modo, tornamo-nos próximos de Deus, porque na pessoa de Jesus, nossa humanidade se uniu para sempre com o divino. E por meio da vida de Jesus, o divino se tornou humano e nós, homens e mulheres, podemos participar da vida divina. Toda a vida de Cristo é, portanto, acontecimento de revelação, inclusive sua vida oculta no lar de Nazaré (marcada pelo temporal e laical). O que é visível na vida terrena de Jesus conduz ao seu mistério invisível, sobretudo ao mistério da sua filiação divina: “quem me vê, vê o Pai” (Jo 14, 9). Também toda sua vida é mistério de salvação, porque tudo o que Jesus fez, disse e sofreu tinha como objetivo nos salvar e nos restabelecer na comunhão e dignidade de filhos e filhas de Deus.
Na vida da Igreja, todos os batizados são incorporados a Cristo, adquirem nele a identidade filial e são enviados em sua missão de salvação. A missão de Jesus Cristo é também missão de seus discípulos. Por isso, nossa missão é comunicar a salvação: revelar que Deus é Pai e que ama a todos como filhos e filhas, restabelecendo a comunhão entre o divino e o humano, e consequentemente entre nós humanos, no amor. À medida que realizamos nossa missão, assimilamos a vida de Jesus Cristo: participamos do mistério de sua filiação divina. A vida de Jesus é marcada por duas polarizações fundamentais: Deus e os outros. Não é estranho que ele resumiu a Lei em amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo (cf. Mc 12,30-31). Em sua relação com Deus, Jesus vive como Filho muito amado, no qual o Pai encontra todo o seu agrado (cf. Lc 3,22). Na sua relação com os outros, Jesus não se envergonha de nos chamar de irmãos (cf. Hb 2,11), porque ele é o “primogênito de muitos irmãos” (Rm 8,29), é o humano Deus-conosco, que participa de nossa condição: tem nossa carne e nosso sangue (cf. Hb. 2,14).
Nossa vocação eclesial é uma tentativa de viver como Jesus viveu, realizando no mundo sua missão de salvação. Por meio do abandono filial nas mãos do Pai, o discípulo missionário de Jesus é enviado para viver a fraternidade como sua missão, assumindo a palavra de Jesus: “vós sois todos irmãos” (Mt 23,8). Ser discípulo é ser filho; ser missionário é ser fraterno! O envio missionário não é, primeiramente, para a realização de atividades institucionais, mas sim para amar. Pois somos discípulos missionários de Jesus à medida que amamos os irmãos e irmãs (cf. Jo 13,35). Assim, Deus e o próximo tornam-se a opção fundamental de quem descobre no Evangelho de Jesus o sentido da vida, “dei-vos o exemplo para que façais a mesma coisa” (Jo 13,15). Todos devemos ser discípulos missionários de Jesus, inclusive na vida laical (no lar ou no convento). Rezemos, então, para que nós, discípulos missionários leigos, conscientes de nossa vocação e missão, cultivemos o amor e ajudemos a fazer o mundo mais irmão!
Ir. Marcos Vinícius, C.Ss.R.
Missionário Redentorista
O Documento da V Conferência do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, ou simplesmente Documento de Aparecida, fala sobre o protagonismo de alguns setores de deslocados que fazem da América Latina além do continente da esperança, também o continente do amor. Como setores deslocados são citados os favelados, os camponeses, os afro-americanos, os indígenas e as mulheres.
E mais, o Documento dos bispos vê os deslocados como os novos excluídos, aqueles que ficam de fora da realidade social do consumo. São esses novos pobres que se somam aos pobres que sempre tivemos em nosso meio, e que nos interpelam para uma ação mais cristã: acolhimento e socorro como resposta externa para que nossa fé cristológica seja mais coerente.
Os deslocados são muitos, assim como são também os meios de deslocação de milhares de homens e mulheres pelo mundo. No entanto, parece-me ser único o sentimento de um deslocado, como também o parece ser o fator da deslocação. E assim poderíamos dizer: um deslocado sente-se não desejado; e a deslocação é fruto do desamor. Ambas as realidades são contrárias à mensagem cristã.
Jesus nasceu entre os deslocados da Palestina: galileu, pobre, num estábulo. Tudo isso, porque não havia lugar para ele dentro de casa (cf. Lc 2,7). Nasceu fora do lugar onde se passava a vida de cidadania judaica, mas, sobretudo romana. Nasceu, viveu e morreu entre os deslocados. Também seu seguidos experimentaram a deslocação desde o início da Igreja, até chegar o ponto em que não há mais lugar para eles no Judaísmo e nem no Império Romano.
Como membros da Igreja, os bispos podem mais do que ninguém, a partir das raízes históricas da Igreja, solidarizarem-se com os deslocados da América Latina. E ao mesmo tempo, podem também se arrependerem, como todos nós cristãos latino-americanos, de ser responsáveis pela deslocação de tantos seres humanos ao longo da história da conquista e colonização da América.
Perguntei-me se não houve lugar para alguém dentro do Documento de Aparecida. Será que algum grupo humano ainda não encontra lugar em nossa casa? Será que algumas pessoas não são desejadas dentro da realidade eclesial? Creio que cada um poderá responder a partir de sua experiência eclesial. Mas, corre-se o risco de, como Igreja, ser mais instituição do que carisma. Só a abertura ao Espírito de Jesus nos faz capazes de dizer: deixai vir a mim os deslocados (cf. Mc 10,14)?
Rafael Vieira
Encontrei-me com o Walter Falceta Júnior durante o trabalho de cobertura de uma assembléia geral dos bispos em Itaici, na virada da penúltima para a última década do século passado. Parece que faz muito tempo, mas não faz. Coisa de uns 15 anos. Naquela época, quando Monsenhor Arnaldo Beltrami era assessor de imprensa da CNBB e a gente aprendia com ele, todos os dias, como é que se faz jornalismo sobre a igreja, o Falceta era visto como um sujeito sério, competente e um promissor profissional. Nunca mais o vi. Nos anos seguintes, lia suas matérias no jornal O Estado de São Paulo e, cada vez, ficava mais impressionado com a leveza e a precisão dos seus textos. Outro dia, numa pesquisa que fiz para produzir um programa sobre pedofilia para a TV Aparecida, deparei-me com um precioso depoimento dele sobre o caso de infâmia e de calúnia sofrido pelo Padre Julio Lancelotti e, me chamou a atenção, a análise que Falceta faz sobre o tipo de trabalho jornalístico feito pela revista Veja. Nesse texto ele usa, de forma apropriadíssima, a expressão “imprensa de latrina”.
Ocorre uma reincidência semanal na maneira com que essa revista trata os principais assuntos do país. Do alto de sua tiragem, protegida pelo dinheiro que a sustenta e confortavelmente instalada numa pretensa posição de “oposição” ao governo federal, a revista se dá o direito de distorcer, induzir e vaticinar contra tudo e todos e permanece sempre incólume. Suas capas são, particularmente, verdadeiros ícones do modo errado de lidar com a informação. Tomemos o exemplo mais recente que tem características de fácil compreensão por todas as pessoas minimamente expostas ao derramamento midíatico das últimas semanas. Edição n. 2057 de 23 de abril de 2008. Na capa, a revista encerra o caso do assassinato da menina Isabella Nardoni. Antes mesmo que tivessem sido realizados os procedimentos legais de investigação sobre esse caso que engessou o sistema de comunicação brasileiro. Uma foto do casal dentro de um carro envolto em sombras, uma frase com letras pequenas de cor amarela dava o fundamento de uma manchete, “para a polícia, não há mais dúvidas sobre a morte de Isabella”. E em letras enormes, a sentença: “foram eles”.
Todas as evidências divulgadas, até agora, estão mostrando que o veredicto pode ser este alardeado pela revista, mas a questão continua: é esse o papel da imprensa? Antecipar as conclusões da justiça, estabelecer onde está a verdade dos fatos ainda que eles não tenham sido devidamente apurados? No caso dos Nardoni nem tem tanto perigo porque a exploração exaustiva dos detalhes do crime não deixam grandes possibilidades de erro, mas é exatamente nessa forma contundente de atuar que está o grande sinal de desvio de conduta do jornalismo da Veja. Seus profissionais comportam-se como se fossem os únicos a conhecer a verdade e apontam o dedo contra todos os atores sociais na área política, econômica, social, policial com toda arrogância e prepotência. Se no caso dos Nardoni, os indícios aparentam ser muito fortes, não é sempre assim que os fatos se apresentam na cena brasileira e a revista se comporta sempre desse mesmo modo: categórica, incisiva e, muitas vezes, sem o fundamento necessário.
O Falceta desmantela uma matéria publicada na revista a respeito do Padre Lancelloti e oferece informações que somente um profissional como ele, que conhece por dentro o funcionamento da revista – afinal, ele já trabalhou lá - podia fazer. Ele não economiza nas cores: “À margem direita do rio, empina-se, arrogante, a torre do "pecado", hoje convertida em bunker dos corleones da comunicação. Entre tantos colegas de boa índole, mistura-se o que há de pior em nossas fileiras, empenhados num maquiavélico processo em que a manipulação da doxa tem por objetivo destruir a episteme. O panfleto mente! Depois, distorce, trama, sabota, e agride. Em seus quadros, mantém os mais obstinados inimigos da verdade, dedicados a restaurar preconceitos, atiçar ódios e instituir intolerâncias. Mais que tudo, entretanto, a colorida cartilha do mal esforça-se por injetar nas veias da classe média a desconfiança e o medo”. Falceta se refere ao que escreveram na revista sobre o Padre Lancelloti, mas os adjetivos servem perfeitamente bem para o que ocorre sempre na revista e que chega às bancas todas as semanas.
Foram os italianos que deram ao jogador Ronaldo o titulo de “fenômeno”. Eles gostam disso. Amam títulos pomposos, exagerados, curiosos. A imprensa esportiva chamou Falcão de “Rei de Roma” e se refere a Adriano como “Imperador”. No campo da política se refere a Silvio Berlusconi, o novo e controverso primeiro-ministro e proprietário do time do Ronaldo, como “Il Cavaliere”. Diante do escândalo das ultimas semanas, a imprensa voltou a usar títulos diferentes para caracterizar o tipo de “fenômeno” que o “fenômeno” se meteu. Os jornalistas usaram duas expressões. A primeira, ao dizer o que aconteceu, afirmaram que o jogador se encrencou num episódio de “luce rosse”, isto é, um evento que lembra a prostituição em sua versão bem antiga, quase ingênua. A segunda é dura e direta, quase maldosa. Escreveram que o astro do Milan tornou-se protagonista de um caso no qual dividia a cama com pessoas denominadas na forma que os romanos se referem a todos os travestis que perambulam pelos locais de prostituições da cidade, independente da nacionalidade dos rapazes: “viados”.
Se houver algum tipo de destaque para qualquer notícia na qual esteja presente algum travesti, os jornais de Roma usam o termo pejorativo em português e no plural, mesmo quando tratam de apenas um individuo. Em outras cidades italianas, a história se repete e quando a imprensa descreve um caso no Brasil, claro, não usa outra linguagem. O jornal Eurosport resumiu a história do “fenômeno”, a aventura noturna do Ronaldinho com travestis no Rio de Janeiro, num tom que confirma a mania de tratar esses assuntos com enorme preconceito: “Procura companhia, carrega incautamente três ´viados´ para um motel, tenta se distanciar deles, é ameaçado de extorsão e acusado de uso de droga. O Rio de Janeiro está sob choque”. Tudo demasiado, desproporcional, partidário em benefício do ídolo do futebol e em detrimento da identidade dos outros personagens e da própria cidade onde Ronaldinho se encontra em recuperação de uma lesão que sofreu no joelho esquerdo.
A maneira italiana de caracterizar os travestis em geral e os brasileiros em particular remete ao modo grosseiro como se faz alusão aos homossexuais no Brasil e até mesmo em brincadeiras inocentes em círculos de heterossexuais falastrões. Na verdade, a expressão dos italianos desconhece a correção ortográfica do nosso idioma. O animal saltitante é veado. É, curiosamente, na Itália não fazem esta associação entre o animal veado e o homossexual. Eles usam a palavra, mas não se interessam pela origem do seu uso. Parece que só por aqui ligam a figura do cervídio para designar um homem que gosta de outro homem. Um fenômeno curioso.
Compensa lembrar outro fenômeno à guisa de conclusão. Dad Squarisi, genial professora que ensina português no jornal Correio Brasiliense relatou, em sua coluna, um episódio que envolveu a ministra do Turismo, Marta Suplicy, no tempo em que era prefeita de São Paulo. Num evento em homenagem ao Dia do Advogado, um estudante soltou uma galinha preta no palco. O ministro da Justiça de então quis defender a prefeita e saiu com essa “galinha é ofensa. Seria como se um homem estivesse falando e jogassem um veado nele”. Squarisi concluiu: “Símbolo é uma mágica. Por analogia, um objeto representa outro. A balança representa a justiça. A cruz, o cristianismo. A bandeira, a pátria. E a galinha? A penosa deita e rola. Para o estudante, queria dizer macumba. ´Só galinha preta para acabar com a prefeita´, explicou ele. Para o ministro, mulher superinfiel. De quebra, o infeliz recorreu a outro símbolo pejorativo - o veado. Agrediu os homossexuais. Moral da história: não é por acaso que nascemos com dois ouvidos, dois olhos e uma boca. É para ouvir mais, ver mais e falar menos”.